Quem acompanha astrologia já ouviu falar que existem 12 signos. Mas o caminho que o Sol parece percorrer no céu, visto da Terra, passa por 13 constelações. A décima terceira tem nome: Ofiúco, também chamada Serpentário. Ela fica entre Escorpião e Sagitário, e o Sol a atravessa entre 30 de novembro e 17 ou 18 de dezembro, cerca de 18 dias. Neste artigo, vamos entender o que é essa constelação, de onde ela veio, por que a maior parte da astrologia não a usa e o que dois autores diferentes escreveram sobre quem nasceria sob esse período.
O que é Ofiúco e onde ele fica no céu
Ofiúco é uma constelação real, reconhecida oficialmente. Ela representa a figura de um homem segurando uma serpente. No céu, ocupa uma faixa que cruza o equador celeste e é visível de boa parte do planeta em determinadas épocas do ano. O ponto central da questão é que o Sol, em seu movimento aparente ao longo do ano, passa por dentro dela.
A eclíptica é justamente esse caminho aparente do Sol. Quando os astrônomos mediram com precisão os limites das constelações, ficou claro que a eclíptica não atravessa apenas as 12 constelações tradicionais do zodíaco. Ela cruza 13. A décima terceira é Ofiúco, encaixada entre Escorpião e Sagitário.
Essa constatação não é novidade recente. A confirmação astronômica oficial veio em 1930, quando a União Astronômica Internacional publicou os limites precisos das 88 constelações reconhecidas. O trabalho foi conduzido pelo astrônomo belga Eugène Delporte. A partir dali, ficou documentado de forma padronizada o que já se sabia: o Sol passa por Ofiúco todos os anos, entre o fim de novembro e meados de dezembro.
Por que o zodíaco tradicional tem 12 signos e não 13
Para entender a exclusão de Ofiúco, é preciso voltar no tempo. O zodíaco de 12 signos que usamos hoje vem da Babilônia antiga, por volta de 450 a.C. Mais tarde, foi documentado por Hiparco de Niceia, em 129 a.C., o mesmo que descobriu a precessão dos equinócios, e por Cláudio Ptolomeu, na obra Tetrabiblos, no século II d.C.
O ponto central é que esse zodíaco não é uma medição das constelações reais. Ele é uma convenção de calendário: uma faixa dividida em 12 fatias iguais de 30 graus cada. Essa divisão facilitava a organização do tempo e das estações. Como o número 12 já estava estabelecido, a constelação de Ofiúco simplesmente não entrou na conta. Não foi um erro de observação, foi uma escolha de padronização.
Por isso, quando alguém diz que é de Escorpião ou de Sagitário pela astrologia tradicional, está se referindo a uma fatia de 30 graus do céu, não ao trecho real da constelação correspondente. As duas coisas são diferentes, e é essa diferença que abre espaço para sistemas que incluem Ofiúco.
Quem usa Ofiúco na astrologia
A astrologia ocidental tradicional, chamada de Tropical e usada no mapa astral clássico, não usa Ofiúco. Ela segue as 12 fatias iguais de 30 graus. Quem inclui a décima terceira constelação são astrólogos que adotam sistemas específicos.
O mais conhecido é o do astrólogo britânico Walter Berg. Seu nome verdadeiro era Barry Parkinson, nascido em 28 de outubro de 1947, em Chorley, na Inglaterra. Berg estudou astrologia a partir de 1980, colaborou com o astrólogo britânico Jeff Mayo e escreveu a coluna The Evening Sky a partir de 1989. Em 1995, publicou o livro The Thirteen Signs of the Zodiac, também lançado como The 13th Sign, pela editora Thorsons. Nele, apresentou um sistema completo de 13 signos baseado nas constelações reais.
O livro teve grande repercussão no Japão a partir de 1996, traduzido pela apresentadora de rádio Mizui Hisami. Berg chegou a aparecer no programa Ijou Nashi!, da Fuji TV, com audiência estimada em 9 milhões de espectadores. Foi ele também quem desenhou, em 1995, o símbolo hoje usado para representar Ofiúco. Esse símbolo foi incorporado ao padrão Unicode em outubro de 2010.
Além de Berg, outros autores propuseram versões próprias de zodíaco com mais de 12 signos -- o mais antigo deles é o americano Steven Schmidt, que chegou décadas antes de Berg e cujo sistema é bem diferente, como vamos ver adiante. O físico grego Vasilis Kanatas chegou de forma independente, em 2011, às mesmas durações de constelação usadas por Berg. Essas propostas alternativas não são a fonte usada no cálculo do Mapa Eclíptico do Astrolabis, que segue as fronteiras oficiais da União Astronômica Internacional.
No Brasil, Bruna Carboni escreveu Astrologia Eclíptica, uma das poucas obras em português sobre o tema, incluindo uma proposta de 13 casas astrológicas. É a referência usada por quem segue a Astrologia Eclíptica, que adota as fronteiras constelacionais reais da União Astronômica Internacional em vez da convenção de 30 graus.
A mitologia por trás do Serpentário
Na mitologia grega, Ofiúco está ligada a Asclépio, chamado Esculápio na forma latina. Ele era filho de Apolo, deus da medicina e da cura. Conta a história que Asclépio aprendeu a curar observando uma serpente usar ervas. Seu conhecimento teria chegado ao ponto de reviver os mortos.
Zeus, temendo que isso desequilibrasse a ordem natural, o matou com um raio. Depois, porém, colocou-o entre as estrelas em reconhecimento. É por isso que o símbolo da medicina, a serpente enrolada num bastão, remonta a essa mitologia. O próprio nome Ofiúco significa aquele que segura a serpente.
Essa origem ajuda a entender o tom associado à constelação: cura, conhecimento profundo, capacidade de enxergar o que está oculto e uma certa tensão entre ajudar e mexer em assuntos que talvez não devessem ser mexidos.
Steven Schmidt: um sistema anterior, e diferente, de Berg
Antes de Walter Berg, em 1970, o americano Steven Schmidt já tinha proposto seu próprio zodíaco alternativo, no livro Astrology 14: Your New Sun Sign, com uma continuação em 1974, The Astrology 14 Horoscope: How to Cast and Interpret It. O sistema dele incluía Ofiúco -- mas também Cetus, e funcionava de um jeito bem diferente do de Berg.
Em vez de usar as fronteiras constelacionais reais da União Astronômica Internacional, Schmidt dividiu o zodíaco em 14 fatias artificiais de 26 dias cada. Ele também discordava de onde fica o "ponto zero" do zodíaco -- e é aí que entra outro conceito astronômico real.
De onde vem o ponto zero: o papel da precessão
Todo sistema de zodíaco precisa de um ponto de partida -- o "grau zero" a partir do qual tudo o mais é contado. Na astrologia tradicional, esse ponto zero é sempre o equinócio de março, chamado por convenção de "0° de Áries", não importa em qual constelação o Sol esteja de verdade naquele momento.
Schmidt discordava dessa convenção por causa da precessão dos equinócios -- o lento "cambalear" do eixo da Terra que desloca o ponto do equinócio de março pelas constelações ao longo dos milênios (o mesmo fenômeno por trás da ideia popular da "Era de Aquário"). Segundo ele, esse ponto já não está mais em Áries, e sim em Peixes -- por isso, no sistema dele, é Peixes que abre o ano zodiacal, não Áries.
Isso desloca as datas de todos os 14 signos do sistema dele, não só as de Ofiúco e Cetus. Áries deixa de ser o primeiro signo e vira o segundo. No caso de Ofiúco especificamente, Schmidt usa as datas de 6 a 31 de dezembro -- diferentes tanto das datas reais baseadas na fronteira constelacional (30 de novembro a 17-18 de dezembro, usadas por Berg e pelo Mapa Eclíptico do Astrolabis) quanto de qualquer outra convenção. São, ao todo, três "pontos zero" diferentes disputando espaço nesse debate.
Como Schmidt tentou definir as características de cada signo
Schmidt foi explícito sobre discordar do método tradicional, que decide o caráter de alguém só pela regência do planeta associado ao signo. No sistema dele, cada interpretação vem de uma amostra de pessoas reais nascidas naquele período -- incluindo pessoas famosas e conhecidos pessoais dele, com amostras que variavam de cerca de 20 a 25 pessoas por signo.
Um detalhe honesto do próprio autor: para os 12 signos tradicionais, ele reconhece que suas descobertas empíricas não contradisseram muito a tradição -- mesmo com um método diferente, chegou a conclusões parecidas com o que a astrologia já dizia havia séculos. A verdadeira novidade ficou por conta dos dois signos sem tradição prévia nenhuma: Ofiúco e Cetus.
O sistema completo de Schmidt não parou em Ofiúco e Cetus -- ele redefiniu, à sua maneira, os 14 signos inteiros e até as 14 Casas do horóscopo. Se quiser ver os 14 signos completos, a tabela de datas comparadas com a astrologia tradicional, e a tabela das Casas, tem tudo no artigo dedicado a Cetus e ao sistema de 14 signos.
O que Schmidt escreveu sobre Ofiúco
No livro de 1974, Schmidt descreve Ofiúco como regido por Plutão -- um planeta que, segundo ele, tinha sido descoberto havia pouco tempo demais para se conhecer sua influência em detalhe, mas que, colocado bem no resto do mapa, pode ser positivo. Segundo ele, o Ascendente em Ofiúco tende a fortalecer a capacidade de se virar e de ser versátil.
Schmidt descreve quem tem essa configuração como alguém com boa chance de sucesso no mundo do entretenimento -- com talento pra dominar vários instrumentos musicais, cantar e compor, se tiver inclinação musical. Aponta também bastante charme pessoal, a ponto de "dominar a conversa" numa festa. Carreira política, escreve ele, provavelmente não é uma boa escolha. Segundo Schmidt, o talento e a sensibilidade dessas pessoas costumam ser tão fortes que, sem uma válvula de escape criativa, elas tendem a se sentir frustradas com uma vida "normal", de casa, escritório ou fábrica -- por isso ele recomenda fortemente que a pessoa encontre um meio de expressão pra essa energia, seja como profissão ou não.
O que Berg escreveu sobre Ofiúco
No livro de 1995, Berg descreve "The New Ophiuchus" (décimo signo do sistema dele, de 30 de novembro a 17 de dezembro) como regido por Júpiter e Plutão, do elemento Água e qualidade Mutável. O arquétipo central que ele usa é "o Médico": liga diretamente o símbolo de Ofiúco ao bastão de Esculápio, usado até hoje por associações médicas mundo afora, e ao juramento hipocrático.
Segundo Berg, quem nasce sob Ofiúco tem "um impulso primitivo de ajudar e confortar os outros" e costuma se dar bem em profissões de cuidado -- mas também em engenharia, seja civil, eletrônica ou mecânica, porque, escreve ele, "cirurgiões são, no fundo, engenheiros trabalhando na máquina humana". Cita ainda farmacêuticos e químicos como ocupações comuns entre "filhos de Ofiúco", atraídos por misturar e combinar substâncias como um alquimista.
Entre os pontos fracos, Berg aponta uma tendência a certo egoísmo quando a pessoa está mergulhada num projeto próprio -- até terminar, "é adeus pra todo mundo" -- e o que ele chama de um lado "diplomata": a pessoa entra e sai de situações emocionais delicadas sem ser notada, e costuma ignorar convenções sociais e hierarquias, tratando "príncipes e mendigos" da mesma forma. No amor, escreve que os parceiros ideais são de Leão, Áries, Libra ou Aquário -- e alerta que essas pessoas podem, sem perceber, drenar a energia de quem amam.
Como exemplos, Berg cita no corpo do texto a atriz Kim Basinger e o cineasta Woody Allen. No apêndice do livro, com pessoas famosas nascidas sob cada um dos 13 signos, a lista completa de Ofiúco inclui também Joan Armatrading, Jeff Bridges, Judi Dench, Gary Lineker, John Malkovich, Bette Midler, Richard Pryor e Mel Smith.
Como usar essa informação sem confusão
Se você nasceu entre 30 de novembro e 17 ou 18 de dezembro, não precisa abandonar seu signo tradicional. O mais útil é entender que existem várias formas de olhar para o céu: a convenção de 12 fatias iguais, a leitura baseada nas constelações reais (Berg, Carboni, o Mapa Eclíptico do Astrolabis), e ainda a proposta particular de Schmidt, com seu próprio ponto de partida ajustado pela precessão. Cada uma tem sua lógica e seu uso -- e, como vimos, mesmo as duas versões alternativas discordam bastante entre si sobre quem seria Ofiúco.
O mapa astral clássico continua sendo calculado com as 12 fatias. Saber da existência dessas propostas alternativas evita discussões sem sentido e permite escolher qual abordagem, se alguma, faz sentido pra você.
O mais importante é não tratar nenhuma delas como verdade absoluta sobre quem você é. Astrologia, em qualquer sistema, descreve tendências, não destinos fechados. O que você faz com essas informações é o que realmente importa.